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terça-feira, novembro 18, 2014

Coisas do século XXI?

Focas estupram pinguins no Atlântico; pesquisadores tentam entender 

Focas fêmeas são muito disputadas entre os machos da espécie 
Fonte: R7
Pesquisadores ainda não sabem o motivo do ataque aos pinguinsFoto: Reprodução
Um grupo de cientistas busca esclarecer um fenômeno recente na Ilha Marion, no Atlântico Sul. Um estudo divulgado pela revista “Polar Biology” afirma que focas estão abusando sexualmente de pinguins nesse local. A equipe descobriu três casos semelhantes nos últimos 30 anos.
"Em termos humanos, você chamaria isso de estupro", disse um dos pesquisores. "Os pinguins reagem como se o predador estivesse tentando matá-los, porque enquanto as focas praticam o ato, eles lutam por suas vidas, mas elas são muito maiores e mais fortes e, por isso,  elas facilmente dominam os pinguins".
Em um dos casos, a foca tentou copular com um pinguim, e, em seguida, o matou. Os pesquisadores ainda não sabem o motivo do ataque agressivo por parte das focas. No início da pesquisa, acreditava-se que este era um comportamento normal entre focas e pinguins para a sobrevivência na natureza.  Sabe-se agora que o ato faz parte de algo incomum, ainda sem explicação.
Uma teoria é de que talvez a concorrência pelas focas fêmeas esteja aumentando, fazendo com alguns machos mais jovens ataquem os pinguins, que são seus companheiros mais próximos.
"É um pouco desconcertante, chocante e, estranhamente embaraçoso ver a cena, mas definitivamente não há  nada de engraçado nisso", disse um dos pesquisadores.

domingo, novembro 16, 2014

Como atrair talentos para a sala de aula?

Barbara Bruns: "O Brasil não atrai talentos para a carreira de professor"

Economista-chefe do Banco Mundial diz que a baixa qualidade dos docentes impede avanços na qualidade da educação do país

Fonte:  Época

CAMILA GUIMARÃES

A baixa qualidade do professor na América Latina é a principal limitação para o avanço da educação nos países da região, incluindo o Brasil. A qualidade dos docentes é comprometida por um fraco domínio do conteúdo acadêmico e por falta de habilidade na prática de sala de aula. Essa é uma das principais conclusões do estudo Professores Excelentes: Como Melhorar a Aprendizagem dos Estudantes da América Latina e do Caribe, do Banco Mundial, que será lançado em livro, em português, no final de novembro (um resumo do estudo pode ser lido aqui). “Nenhum corpo docente da região pode ser considerado de nível global”, afirma Barbara Bruns,  economista-chefe da área de educação do Banco Mundial, responsável pelas pesquisas sobre qualidade da educação na América Latina e Caribe.“Mas alguns países, como o Chile e a Colômbia, estão fazendo mudanças significativas.” Sobre o Brasil, Barbara afirma que é urgente achar formas de melhorar a qualidade da formação de novos professores e de medir o desempenho dos que já estão na ativa. Só assim o país conseguira dar um salto na qualidade da educação.

ÉPOCA: Até que ponto a qualidade do professor impacta o desempenho dos alunos?
Barbara Bruns: Muitas pesquisas educacionais mostram que o aprendizado – as notas dos alunos, seu sucesso na trajetória escolar e depois na faculdade – está muito ligado à condição socioeconômica da família. Essas pesquisas eram valiosas porque foram feitas em uma época em que tínhamos pouca capacidade de medir o que acontecia dentro da escola. Agora, nós temos muitos dados que analisam o desempenho do professor na sala de aula e descobrimos que o impacto do professor é muito maior do que poderíamos imaginar. Pesquisas atuais e reconhecidas nos permitem saber que alunos com o mesmo nível socioeconômico podem aprender mais ou menos, de acordo com o professor.
ÉPOCA: Em que os professores do Brasil precisam melhorar?

Barbara : Em basicamente três pontos. O primeiro, atrair para as faculdades de pedagogia mais alunos que sejam talentosos e tenham grande capacidade de ser professores. O Brasil, assim como outros países da América Latina, não atrai os melhores e mais brilhantes alunos do ensino médio. Estes procuram outras carreiras, outras profissões. Uma das coisas que o Brasil precisa fazer é achar um jeito de atrair esses cérebros e transformá-los em professores. O segundo é melhorar a qualidade dos professores que já estão trabalhando. Qualquer que seja a medida ou política que o governo adote para melhorar a atratividade da carreira, ela terá resultado no longo prazo. Todos os países que investiram para atrair novos talentos também tinham estratégias para melhorar a qualidade de quem já estava no sistema. Isso é um desafio, porque, assim como em outros países, o Brasil gasta muito dinheiro em cursos de capacitação de professores sem efeito.
ÉPOCA: Que tipo de habilidades têm de ser estimuladas?

Barbara : As essenciais: como fazer boa gestão da sala de aula, do tempo da aula, se comunicar com clareza com os alunos, preparar lições e provas. Visitei inúmeras salas de aula no Brasil inteiro, observando alunos e professores. Na maioria das classes, pelo menos 30% dos alunos não prestavam atenção na aula. O Brasil precisa medir a qualidade dos professores. Sabemos que para entrar na rede pública muitos passam por concursos, mas muitos não têm qualificação mínima, apesar dos títulos. O Brasil precisa saber o que de fato sabem seus professores, para poder ajuda-los a melhorar de forma eficiente. O Chile criou uma prova de avaliação de conhecimento para os alunos que estão se formando em pedagogia, prestes a assumir uma sala de aula. Descobriu que 8% deles não tinha o conhecimento esperado para isso.
Barbara Bruns: os alunos mais pobres precisam dos melhores professores (Foto: Foto/ Divulgação)
ÉPOCA: E o terceiro ponto?

Barbara :  Incentivo. O Brasil precisa de professores mais motivados. Isso depende de uma boa supervisão de diretores, que entendam seus professores e os ajudem no que for preciso. São poucos os diretores brasileiros que fazem isso sistematicamente. Depende também de passar mais responsabilidade para esse professor. Um profissional se sente valorizado quando responsabilidades e é cobrado pelo seu trabalho. Essa é uma das maiores diferenças entre os sistemas do Brasil e de potencias educacionais como Cingapura, Japão e Finlândia. Nesses países, os professores se sentem muito competentes e orgulhosos da profissão. Eles passam muito tempo trabalhando juntos, dividindo boas ideias e práticas, de forma muito natural.  No Brasil, a maioria chega para dar aula e sai correndo quando bate o sinal. Não têm tempo para observar uns aos outros. Acredito que a maioria dos professores no Brasil tenta fazer seu melhor, mas, assim como acontece nos EUA, eles estão muito cansados e desanimados com as condições de trabalho. Eles reconhecem que não estão tendo sucesso na sua missão, que não têm a habilidade de ensinar e, o mais perigoso, eles desistem e culpam os alunos.
ÉPOCA: A senhora pôde observar isso no Brasil? Pode dar um exemplo?

Barbara : Eu me lembro de uma professora brasileira cuja aula acompanhei aula em setembro. Era uma escola de periferia, terceira serie. Era uma professora nova. Eles eram estudantes com problemas, estavam atrasados. O problema começa daí. Justamente por estarem atrasados deveriam ter designado a melhor professora da escola, não uma iniciante. De repente, no meio da aula, ela se dirigiu até mim e disse, na frente das crianças: “Esses meninos estão muito atrasados e nunca terão condições de aprender o que falta.”  Isso é intolerável. São sempre os estudantes pobres que sofrem mais, porque eles são os mais difíceis de ensinar. Se não tivermos professores que realmente acreditam neles e são treinados para ensina-los, então ficarão mesmo para trás.
ÉPOCA: E incentivos monetários?

Barbara : É uma motivação muito importante. Os salários precisam ser melhores. Mas, o mais importante, é que eles precisam ser de acordo com o desempenho de cada um. Temos muitos dados, muitas pesquisas do mundo inteiro mostrando que não dá certo, como incentivo, aumentar o salário igual para todo mundo. Ganha mais quem é melhor. É por aí que os jovens talentosos serão atraídos. Eles olham para a carreira do professor e percebem que podem ter uma vida confortável e um trabalho satisfatório. A Inglaterra fez isso. Washington DC fez isso, na reforma iniciada há cinco anos. Hoje, temos jovens que querem ser professores e não pensavam nisso cinco anos atrás.
ÉPOCA: Há uma forte discussão nos EUA e em outros países sobre a estabilidade de emprego dos professores. Ela dificultaria o sistema a se livrar dos professores ruins. O que a senhora acha?

Barbara : É preciso demitir quem não tem bom desempenho. Todos os professores, sem exceção, precisam de retorno, de apoio, de condições adequadas de trabalho para melhorar e se desenvolverem. Ser professor não é tarefa fácil.O interessante  é que nos EUA e na América Latina estão passando leis que dizem o seguinte: os professores precisam ser avaliados periodicamente, ter a oportunidade de melhorar, mas se isso não acontecer,  eles podem ser demitidos. Chile, Colômbia e México estão nesse caminho. Boa parte dos distritos americanos também. Isso afeta a atratividade da carreira. Manter os professores ruins e tratá-los como os bons espanta os jovens talentos.

domingo, novembro 02, 2014

Como combater a corrupção?

O segredo da Suécia para combater a corrupção

O que faz da Suécia um dos países menos corruptos do mundo? Entenda como desde a década de 70 só houve dois casos de corrupção política naquele país a nível nacional

suécia corrupção
Cidade de Gotemburgo, Suécia (Divulgação)
Texto da jornalista Claudia Wallin, retirado do livro ‘Um País sem Excelências e Mordomias’. No trecho abaixo, a jornalista entrevista Gunnar Stetler, responsável pela corrupção no país.
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Gunnar Stetler franze a testa, pisca duas vezes e contrai os músculos do rosto, como quem faz um cálculo extraordinário. Percorre os labirintos da memória durante uma longa pausa, e encontra enfim a resposta: nos últimos 30 anos, ele diz, foram registrados apenas dois casos de corrupção entre parlamentares e integrantes do governo na Suécia.
”Tenho apenas uma vaga lembrança”, diz Stetler. ”É muito raro ver deputados ou membros do Governo envolvidos em corrupção por aqui.”
Estamos no escritório abarrotado de arquivos e papéis do promotor-chefe da Agência Nacional Anti-Corrupção (Riksenheten mot Korruption), no bairro de Kungsholmen. A poucos passos dali, na mesma rua Hantverkargartan, fica a sede da temida Ekobrottsmyndigheten, a Autoridade Sueca para Crimes Financeiros. Com o sol de abril que enfim derreteu o gelo de mais um inverno, do outro lado da rua mães passeiam com seus carrinhos de bebê entre os túmulos do jardim da igreja Kungsholmskyrka, um hábito comum que se estende a vários cemitérios-parque da cidade.
Da sua pequena sala, Gunnar Stetler chefia o trabalho de promotores especializados que investigam os principais casos de suspeita de corrupção no país. Casos menos graves são processados a nível regional, nas diversas promotorias distritais que compõem o cerco sueco contra trapaças, tramóias e falcatruas em geral.
Com 1,93m de altura, expressão grave e ar insubornável, Gunnar Stetler é descrito na mídia sueca como o maior caçador de corruptos do país. Entre os casos sob a sua mira em 2013 estava a denúncia de que a operadora de telefonia sueca TeliaSonera teria pago suborno no valor de 337 milhões de dólares para estabelecer operações no Uzbequistão.
”Historicamente, 75 por cento das acusações formais contra crimes de suborno na Suécia terminam em condenações”, diz Stetler.
Nascido em 1949, Stetler ganhou fama após conduzir casos como o de um ex-diretor da empresa sueca ABB, condenado a três anos de prisão em 2005 por ter desviado 1,8 milhão de coroas suecas para uma empresa registrada no paraíso fiscal das Ilhas Virgens Britânicas.
”Chega um momento em que uma pessoa não se contenta mais com um Volvo V70, e quer trocá-lo por um Porsche. A ganância é parte do dilema humano”, reflete Stetler.
Para o promotor-chefe, são três os fatores que mantêm a Suécia à margem das listas de países gravemente corruptos: a transparência dos atos do poder, o alto grau de instrução da população e a igualdade social.
O que faz da Suécia um dos países menos corruptos do mundo?
GUNNAR STETLER: Em primeiro lugar, a lei de acesso público aos documentos oficiais. Esta lei, criada na Suécia há mais de duzentos anos, evita os abusos do poder. Se os cidadãos ou a mídia quiserem, podem verificar meu salário, meus gastos e as despesas de minhas viagens a trabalho. Meus arquivos são abertos ao público. E acreditamos que, ao colocar os documentos e registros oficiais das autoridades ao alcance do público, evitamos que os indivíduos que exercem posições de poder pratiquem atos impróprios. Esta é a razão principal. Em segundo lugar, é preciso citar a lei aprovada na Suécia há cerca de 200 anos [em 1842, nota do autor], que introduziu o ensino compulsório no país e aumentou o nível geral de educação da população.
Qual é o impacto de uma população com maior grau de instrução na prevenção da corrupção?
GUNNAR STETLER: Se uma pessoa não tem acesso à educação, ela não tem condições nem de compreender e muito menos de fiscalizar o sistema. Na Suécia, acreditamos que uma sociedade se constrói não a partir do topo, mas a partir da base da população. Portanto, é preciso oferecer uma boa educação a todas as camadas da sociedade. A China tem um alto grau de corrupção, mas vem investindo na melhoria do nível de instrução da população. Creio que isto irá, de certa forma, reduzir a corrupção no país.
Com que frequência o seu telefone toca com denúncias de corrupção?
GUNNAR STETLER: Recebo cerca de quatro ligações do público todos os dias. Mas de cada 15 denúncias, em geral apenas uma tem base para caracterizar um caso. A maior parte dos casos se refere a questões de menor dimensão, como quando um funcionário público aceita viajar para um resort a convite de uma empreiteira a fim de facilitar um contrato. Se você é um funcionário público na Suécia, não está absolutamente autorizado a aceitar este tipo de convite. Lidamos também com casos de maior envergadura. Acabo de acusar formalmente um dos chefes do Kriminalvården (sistema prisional sueco), que recebeu subornos da ordem de milhões de coroas suecas de uma empresa contratada para construir penitenciárias. Trabalhamos com denúncias do público, da mídia e também de sistemas nacionais de auditoria, como o Riksrevisionen (órgão independente que controla as finanças das autoridades públicas na Suécia).
Qual é o nível de incidência de casos de corrupção política a nível nacional na Suécia, entre parlamentares e membros do Governo?
GUNNAR STETLER: É muito raro ver deputados ou membros do Governo envolvidos em corrupção por aqui.
Qual foi a última vez que isso ocorreu na Suécia?
GUNNAR STETLER: Se me lembro bem (pausa)…talvez tenham sido uns dois casos (pausa)…nos últimos (pausa)…trinta anos.
O senhor quer dizer que desde a década de 70 só houve dois casos de corrupção política a nível nacional?
GUNNAR STETLER: Sim.
Que casos foram esses?
GUNNAR STETLER: Se não me engano (pausa)…há cerca de dez anos (pausa)…um deputado do Parlamento, representante da costa oeste, cometeu um erro (pausa)…tenho apenas uma vaga lembrança.
Se o senhor tem apenas uma vaga lembrança sobre o que seriam os dois únicos casos de corrupção política a nível nacional nos últimos 30 anos, pode-se presumir que não tenham sido grandes escândalos?
GUNNAR STETLER: Sim. Em termos de corrupção política, casos mais sérios ocorrem principalmente nas municipalidades.
Mas a última vez que um político sueco foi condenado à prisão por corrupção foi aparentemente em 1995. Isso significa que o grau de corrupção política na Suécia não é em geral grave o suficiente para exigir pena de prisão, ou é um sinal de que o sistema é leniente com políticos corruptos?
GUNNAR STETLER: Na Suécia, em geral, toda punição é leniente.
Como assim?
GUNNAR STETLER: No sistema penal sueco, o princípio básico não é a punição, e sim a reintegração do indivíduo à sociedade. Esta é a nossa tradição. O código penal não prevê punição especialmente dura para casos de corrupção política.
Punições mais severas não são então a resposta para combater a corrupção política?
GUNNAR STETLER: Quem pune políticos corruptos é a opinião pública. Se um deputado ou um funcionário da administração estatal pratica um ato de corrupção, ele será punido severamente pela sociedade, principalmente por ter cometido um erro a partir de uma posição de poder. Um deputado, por exemplo, pode ser forçado a renunciar através da pressão da opinião pública e da mídia, mesmo quando não é indiciado formalmente.
Há alguma regra especial para investigar e processar políticos por crimes de corrupção, como a necessidade de obter aprovação do Parlamento ou de algum comitê?
GUNNAR STETLER: Não.
Cabe principalmente à mídia e aos cidadãos fiscalizar o poder, ou a instituições como a que o senhor dirige?
GUNNAR STETLER: Cabe, em primeiro lugar, à imprensa livre. Se a mídia tem acesso aos documentos oficiais, ela poderá agir, juntamente com os cidadãos, para garantir uma sociedade mais limpa. É claro que agentes oficiais, como a Agência Anti-Corrupção, também cumprem um papel importante. Presumo que talvez, no Brasil, os cidadãos não confiem em servidores públicos como eu. Mas na Suécia a maior parte das pessoas confia nas agências do poder público, e uma das razões disso é o fato de que os cidadãos podem supervisionar o que as agências fazem.
Como é o trabalho da Agência Nacional Anti-Corrupção?
GUNNAR STETLER: Nosso foco principal é o suborno. Pode-se dizer que o suborno, tanto na esfera pública como no setor privado, é um câncer para qualquer sistema. Mesmo quando o valor do suborno é muito baixo, ele pode influenciar uma licitação no valor de um bilhão de coroas suecas. No setor público, é importante que as compras de bens e serviços sejam realizadas de modo correto. A construção de um novo hospital, por exemplo, pode custar cerca de 1,7 bilhão de coroas suecas (cerca de 260 milhões de dólares). Quando uma agência do setor público lida com um contrato deste porte, é importante que haja uma distância entre a empresa que vai construir o hospital e os funcionários públicos que vão aprovar tal contrato. No meu ponto de vista, e penso que a maioria das pessoas na Suécia concorda, é essencial que funcionários públicos não aceitem ofertas ou presentes de nenhum tipo, mesmo os de baixo valor.
Os suecos em geral parecem realmente ter receio da regra que proíbe aceitar qualquer brinde ou presente com valor acima de aproximadamente 400 coroas suecas.
GUNNAR STETLER: Em geral, nenhum funcionário público ou privado na Suécia é autorizado a aceitar brindes ou presentes acima de 300 ou no máximo 400 coroas (entre cerca de 46 e 60 dólares). Na minha posição, não posso aceitar nada.
Nada?
GUNNAR STETLER: Não. Nem mesmo um café com wienerbröd (tipo de pão doce sueco). E não acho que políticos ou funcionários públicos na Suécia aceitam, em geral, o que é considerado como suborno real, ou seja, grandes subornos.
Não acontece?
GUNNAR STETLER: Pode acontecer, mas não é normal. A questão é definir o que é considerado como um suborno. Para alguns, aceitar um convite para jantar ou passar o fim de semana em um resort não configura um suborno. Mas na Suécia, convites deste tipo caracterizam de fato um suborno. Principalmente para aqueles que trabalham no setor público.
Aceitar um convite para jantar pode então ser considerado um crime?
GUNNAR STETLER: Na minha opinião, uma pessoa ou empresa privada não pode convidar um funcionário público para jantar, se há um negócio envolvido entre as duas partes.
Qual é o seu melhor conselho para um país como o Brasil se tornar uma sociedade mais limpa?
GUNNAR STETLER: É preciso compreender que esta é uma tarefa que não pode ser cumprida em 24 horas. Para combater a corrupção, é necessário implementar um sistema de ampla transparência dos poderes estatais, aumentar o nível de educação da população em geral, e promover a igualdade social. A educação é o princípio básico do que chamamos na Suécia de jämlikheten (a igualdade social). E este é também um fator importante na prevenção da corrupção. Parece-me que o Brasil é um país com enormes desigualdades sociais.
Qual a importância da igualdade social neste processo?
GUNNAR STETLER: Se uma pessoa tem que lutar diariamente por sua sobrevivência, para ter acesso a alimentação, escolas e hospitais, a questão do combate à corrupção na sociedade certamente não estará entre seus principais interesses. Mas quando uma pessoa se sente parte da sociedade à qual pertence, passa a não aceitar os abusos do poder.
FONTE: Pragmatismo Político
Disponível em: http://www.pragmatismopolitico.com.br/2014/08/o-segredo-da-suecia-para-combater-corrupcao.html

segunda-feira, outubro 06, 2014

Sobre os candidatos mais votados em SP e RJ



Por Leonardo Sakamoto

Fonte: Blog do Sakamoto

Os três primeiros colocados para a eleição de deputado federal em São Paulo – Celso Russomanno (7,26% do total de votos), Tiririca (4,84%) e Marco Feliciano (1,90%) – bem como os três do Rio de Janeiro – Jair Bolsonaro (6,10%), Clarissa Garotinho (4,40%) e Eduardo Cunha (3,06%) – têm uma característica em comum: sabem se beneficiar da exposição midiática.
Parte deles fez sua carreira na mídia e a outra conseguiu entender a lógica da cobertura política e, produzindo factóides, surfou nessa lógica, mantendo-se constantemente em evidência em seus mandatos.
Discordo das avaliações de que eles foram os primeiros apenas por conta de suas pautas conservadoras. O conservadorismo está presente nas bancadas paulista e carioca (e não é de hoje e nem apenas em partidos ditos de “direita''), mas não é elemento suficiente para explicar essas expressivas votações. Até porque há outros representantes do pensamento reacionário que foram candidatos, alguns deles com mais profundidade ou legitimidade em suas defesas, inclusive.
Estes, em especial, souberam criar narrativas e fatos políticos que são um prato cheio para nós, jornalistas, ávidos por registrar e transmitir discursos que, por fugir do que acreditamos ser a forma tradicional de fazer política, chamam a atenção e produzem audiência.
Tanto que a lógica opera de ambos os lados. Jean Wyllys, o jornalista e professor, que até então era conhecido por ganhar uma das edições do Big Brother, eleito, em 2010, graças aos votos recebidos por Chico Alencar, tornou-se o sétimo deputado federal mais votado do Rio de Janeiro (1,90%), nestas eleições, por conta de uma intensa atuação em defesa de minorias e dos direitos humanos na Câmara dos Deputados. Ao adotar as pautas consideradas polêmicas por outros e ser um necessário contraponto a políticos como Bolsonaro e Feliciano, conquistou um espaço importante na mídia.
(Um parênteses: se a TV ajudou bastante na exposição de Jean, ela, contudo, não foi sua principal eleitora e sim a internet. E, acredito, o mesmo se aplique a Jair Bolsonaro. Ou seja, o tamanho da votação de parlamentares relacionados à pauta dos direitos humanos, para um lado ou para o outro, esteve diretamente relacionado ao “patrimônio'' criado nas redes sociais no dia a dia de sua atuação no Congresso e durante a campanha.)
Tiririca seguiu sendo um voto de protesto. Mas esse posto não é novo, sempre foi ocupado por alguém. E, normalmente, uma figura que tenha se tornado conhecido pela TV. Pois antes do personagem interpretado por Francisco Everardo Oliveira Silva, tivemos Enéas Carneiro, conhecido pela defesa caricatural de propostas conservadoras nas eleições presidenciais de 1989, 1994 e 1998. Esse “capital de imagem de TV'' acumulado possibilitou que ele fosse eleito deputado federal, em 2002, com 1,54 milhão de votos – até hoje a maior votação de um deputado no Brasil.
Isso prova que as bancadas desses estados não eram conservadoras ou não ficaram mais conservadores após esta eleição? Não, de maneira alguma. Apenas que não foi essa a única razão que gerou esses campeões de votos, talvez nem a principal, e que a mídia tradicional continua uma eleitora muito forte, construtora (e demolidora) de marcas e reputações.
É claro que veículos de comunicação são empresas e empresas têm suas preferências. Algumas delas deixam isso claro diariamente, outras nem tanto. O fato é que essas preferências editoriais também criam espaços para quem carrega determinados discursos e sabe reconhecer uma boa oportunidade de crescer. Ou seja, quem tem competência midiática vai mais longe.
Ou parafraseando a icônica expressão do assessor de Bill Clinton na campanha presidencial de 1992: É a TV, estúpido!
Fonte: http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/


domingo, novembro 17, 2013

Brasil!